sábado, 23 de julho de 2011

Congresso de Liturgia da Arquidiocese de Colombo: "O Antigo Missal Romano: perca e redescoberta"


ARQUIDIOCESE DE COLOMBO

Congresso de Liturgia

Aquinas University College
01 a 03/09/2010



O Antigo Missal Romano: perca e redescoberta


Por Martin Mosebach


A história da Santa Igreja Católica é cheia de mistérios; e há tanto mistérios bons quanto mistérios maus. O Apóstolo Paulo, de maneira significativa, fala do mysterium iniquitatis, o “mistério da iniquidade”. Há séculos, a chamada Teodiceia, ou seja, a questão do “como pode haver o mal na Criação que Deus fez boa” constantemente esteve bem inflamada. É uma questão que surge de um profundo mal-estar, de uma profunda aflição. O “mistério da iniquidade”, de São Paulo, reconhece a angústia causada pela existência do mal, mas absolutamente se nega a dar uma resposta a isto. Eu também não direi se o mistério do qual estou para falar é bom ou mau, ou uma mistura indissolúvel de ambos os elementos. Por que sou reticente neste ponto? Cada um dos grandes eventos da história tem consequências que geram ondulações que se propagam pelos séculos, e estas consequências estão constantemente mudando o seu aspecto. Algo que é uma maldição num século pode tornar-se uma bênção num outro posterior. Mas é também o caso de doenças que podem permanecer enquanto mudam as suas manifestações.

Estas observações introdutórias, devo admitir, expressam uma certa hesitação de minha parte. Isto é porque estou profundamente ciente da seriedade do meu assunto. Eu desejo falar-vos sobre uma tremenda perturbação na história da Igreja desde o Concílio Vaticano II. Pois foi então que algo inteiramente novo aconteceu: algo que, até então, era impensável. Sempre que um católico ouvir a palavra “novo” em relação à Igreja, ele deve ficar de guarda. O que é realmente “novo” na história do mundo é a Encarnação, o Deus tornar-se homem, e isto já teve lugar. Ao mesmo tempo, esta Encarnação nunca cessa de se apresentar a nós como algo novo: é algo tão novo que não podemos compreender plenamente. Ela aponta para um tempo depois do fim dos tempos, quando o mundo será recriado. Ela antecipa esta nova criação, mas, até isto, a Encarnação aloja-se no corpo do mundo como um fatigante e irritante espinho.

Ao lado de Jesus Cristo nada pode ser “novo”, a menos que esteja completamente cheio dele. Pelo contrário, algo que tenta modificar, intensificar, retocar ou remendar o que foi revelado uma vez por todas sempre será duvidoso e possivelmente até perigoso, por mais interessante e atrativo que possa soar. Há um axioma cultural que afirma “as coisas antigas são melhores”: certamente esta é a experiência de toda cultura, toda civilização. A cultura está necessariamente ligada à confiança na tradição: a cultura consiste na expansão de uma breve vida humana nos largos horizontes do passado e do futuro. A cultura dá ao povo a oportunidade de assimilar as experiências das gerações anteriores e de transmiti-las às gerações que virão. Com base nas experiências das gerações passadas, árvores podem ser plantadas agora, de modo que, eventualmente, as gerações que virão serão capazes de aproveitar os seus frutos. O que é antigo provou que é capaz de sobreviver por várias gerações. Não se afundou no esquecimento, como coisas que não têm valor e que são mortas, mas demonstrou sua fecundidade pelos séculos e até mesmo pelos milênios. Como observou Goethe, o grande poeta alemão: “Somente o que é frutífero é verdadeiro”. Aquilo que é antigo e que permaneceu como uma realidade viva pode até ser a forma visível da verdade, no passado e no presente.

Os cristãos, porém, têm uma razão a mais para se agarrar ao que é antigo e tradicional. A crença cristã na divindade de Jesus Cristo não pode ser equiparada aos mitos pagãos, existentes no eterno presente, não envolvidos na história. Os cristãos acreditam que o Criador do Céu e da Terra tornou-se homem num momento particular da história, no primeiro período do Império Romano e na província mais desprezada do Império. No Credo, um dos textos cristãos mais sagrados, os cristãos pronunciam o nome do Filho de Deus e de sua Santa Mãe junto com o nome de um medíocre e falido oficial provincial romano. Foi Pôncio Pilatos que, por causa de sua fraqueza, associou-se à obra da Redenção. Ele deve sua fama imortal à vontade dos Padres do Concílio de Niceia, que determinaram que deveria fazer parte da fé cristã o fato de Jesus ter sido uma figura histórica. Deus tornou-se homem, e ser homem significava ter um país, uma língua, tradições, e ter nascido num contexto cultural e político. Jesus era um sujeito judeu e também romano. Quando a Igreja subsequentemente incorporou características judaicas e romanas, continuava-se, de certa forma literalmente, a Encarnação. E todas essas perpetuações da Encarnação hão de ser a missão da Igreja até o fim dos tempos.

Todos os cristãos são, portanto, obrigados a olhar para o futuro, para o retorno do Senhor. Mas, a fim de saber quem é este que retornará, deve-se olhar para trás, para o passado. E o "passado" aqui não denota o abismo tenebroso dos primórdios da raça humana, mas as décadas dos reinados dos imperadores Augusto e Tibério. Este foi o tempo daqueles que testemunharam a glória do Senhor e foram até à morte por causa de sua fé. E sua fé era mais um conhecimento do que uma crença. Foram eles que no-la transmitiram. Nenhum sacerdote cristão e nenhum leigo cristão, dando a razão de sua fé cristã, pode dar maior ou melhor explicação do que aquela dada por São Paulo, quando diz: "Eu vos transmiti aquilo que recebi". Ao explicar sua fé, os cristãos são parte de uma corrente que une o presente e o passado. O gesto corporal de impor as mãos, que não pode ser substituído por nenhum espiritualismo, une os cristãos aos Apóstolos de antigamente. O que aprendemos deles é que a presença de Cristo é a vida de sua Igreja, e que esta não vem por meio de auto-sugestão, meditação ou disposições interiores: ela acontece por meio da figura transformada do Cristo Encarnado, como quando ele passa, abençoando o povo, ao impor-lhe as mãos, irradiando um poder miraculoso de suas vestes; ao ter os pés lavados pela mulher que era uma pecadora e ao serem eles atravessados pelos pregos; ao chorar por Lázaro e ao assar um peixe para seus discípulos. Jesus ensinou aos seus discípulos que deveriam constantemente recriar a sua presença. E esta presença era infinitamente mais preciosa que o seu ensinamento, porque continha não só a integridade do ensinamento, mas muito, muito mais: coisas das quais só se pode aproximar pela contemplação, não pela compreensão intelectual. Os seus Apóstolos vieram a tornar-se seus instrumentos, tornando-o presente, presente no mais alto e mais concentrado momento de sua vida terrena, isto é, sua morte sacrifical na Cruz.

Os primeiros cristãos sabiam naturalmente que o culto legado a eles pelo Senhor era muito mais que uma repetição da Última Ceia. Eles sabiam que a Última Ceia era somente um sinal da obra real da redenção que estava para se efetivar em sua morte angustiante na Cruz. Eis porque eles revestiram este culto das mais belas e sublimes formas de oração e sacrifício que a humanidade já desenvolveu, nos milhares de anos antes da vinda do Redentor. Estas formas não tinham autor; elas não foram concebidas por homens sábios: elas cresceram da sensibilidade de todo o povo que desejava adorar a Divindade. Apenas uma coisa distinguia este novo sacrifício cristão de seus antecedentes em todas as religiões: tornar presente o sacrifício de Jesus não era tanto obra de homens piedosos e religiosos, mas obra do próprio Deus. Esta foi uma obra realizada por Deus, para o bem da humanidade. Era uma obra que os homens, mesmo os mais religiosos, nunca poderiam realizar por si mesmos. Só poderiam achegar-se a ela pela graça do Redentor. Este é um axioma central do culto cristão, sem o qual ele se torna ininteligível: ele não é uma obra humana e, portanto, não lhe é permitido aparecer como uma obra humana. Ele deve ser visto como devedor de sua origem não à vontade do homem, mas à vontade de Deus. Para os católicos isto é incontestável. Mas precisamos reconhecer que em várias partes do mundo católico, e particularmente nos territórios que foram os alicerces históricos da Igreja Católica, este axioma não é mais levado em conta.

Após esta prolongada introdução, retornarei agora ao desenvolvimento que teve lugar no despertar do Concílio Vaticano II. Algo então aconteceu e que nunca tinha acontecido antes. Era algo novo. Era novo de tal forma que os católicos só podiam olhar para isto com medo e apreensão. Eu tentei descrever o relacionamento da Igreja com a sua liturgia: por quase dois mil anos a liturgia da Igreja foi aceita sem questionamento como a presença corporal de Jesus, a Cabeça da Igreja. Era o corpo visível da Igreja. Para um católico esta visibilidade não é algo subordinado: ela não está subordinada a um mundo superior, invisível. O próprio Deus assumiu um corpo humano e até mesmo levou as chagas consigo para sua glória. Desde que o Deus-homem viu com nossos olhos e ouviu com nossos ouvidos, nossos sentidos (que são por natureza tão facilmente enganados) estão fundamentalmente habilitados para reconhecer a verdade. Como um resultado da Encarnação de Cristo o mundo material não é mais o reino da ilusão; agora, a matéria pode ser vista novamente como aquilo que ela é: os pensamentos de Deus, expressos nos termos do mundo material. Esta constatação deu origem à absoluta seriedade com que a Igreja se acostumou a realizar todas as ações físicas da liturgia. Todo gesto das mãos, toda inclinação da cabeça e do corpo, toda genuflexão, todo beijo dado nos objetos sagrados eram feitos com seriedade e liberdade. As velas, os vasos e os dons sacrificais do pão e do vinho eram manejados com respeito. A linguagem em que os pensamentos divinos eram expressos dizia respeito literalmente como que a uma instância da revelação. Assim, São Basílio Magno, um dos Padres do Oriente, disse expressamente que a Santa Missa era tão parte da revelação como a Sagrada Escritura. Um pequeno exemplo ilustrará a atitude da Igreja frente ao mundo das coisas que ela delineia em seus Sacramentos (ou delineou antes do Concílio Vaticano II). Na idade média os Cistercienses frequentemente costumavam gravar o nome de Maria em seus cálices de ouro: assim como o corpo de Maria carregou o Deus-homem, o cálice continha o Sangue Divino. Desta maneira, toda a história da salvação é indicada nos objetos usados na Eucaristia. O Concílio Vaticano II repete expressa e enfaticamente a tradicional teologia da Missa; solenemente reconhece a língua sagrada e a música sacra (o Canto Gregoriano, que paira entre o Ocidente e o Oriente, não pertencendo exclusivamente a nenhuma das duas culturas). O Concílio pediu uma revisão cautelosa dos livros litúrgicos - o tipo de revisão que era comum a cada 200 anos ou mais, a fim de prevenir qualquer equívoco que estivesse se arrastando [pelo tempo]. Recordemos o que a Liturgia Católica alcançou até então. A começar da Ásia Menor, conquistou o mundo Greco-Romano. Triunfou, afinal, no Império pagão; testemunhou o declínio deste e foi vitoriosa sobre os povos pagãos do Norte e do Oriente. Tornou-se o instrumento de um êxito missionário único na história do mundo. A quantas desintegrações históricas e revoluções sobreviveu! Expandiu-se para além dos limites da Europa e veio para a Ásia, a África, a América, e a toda parte em que inicialmente era algo estranho - aos povos Germânicos e Irlandeses, bem como para os Indianos, Singaleses e Chineses. Os Germânicos não entendiam o latim, nem poderiam ler, quando o grande missionário, Bonifácio, trouxe-lhes a Santa Missa. Isto tornou-se o caso por um longo tempo, notadamente nos períodos mais brilhantes da Igreja, quando os fiéis sentiram que o mais importante na celebração da Missa não era a compreensão de todas as palavras, mas a experiência da presença do Redentor. Um homem pode ter entendido cada palavra da Missa individualmente, mas se ele não experimentou esta presença, ele não entendeu coisa alguma, estritamente falando. Revoluções incendiaram o mundo, ditaduras se multiplicaram, apenas para entrar em colapso e sumirem, mas a Santa Missa permaneceu sempre a mesma. Para o mundo inteiro, a Santa Missa representou, de modo tangível, a imutável natureza da Igreja ao longo das gerações. Até mesmo os inimigos da Igreja reconheceram que a sua força repousava em sua atemporalidade - ou seja, não é que ela era antiquada, mas ela e sua liturgia não eram identificadas com qualquer período ou cultura; ela sempre teve um pé fora do tempo, em todos os períodos da história. A liturgia não era celebrada no momento presente, mas em omnia sæcula sæculorum, por todos os tempos desde a criação do mundo, até o fim do mesmo, e, enfim, na eternidade. Esta eternidade já começou e é o pano de fundo dourado por trás de todas as épocas históricas; é contra este pano de fundo que a Liturgia - "as Núpcias do Cordeiro" como é chamada no Apocalipse - sempre foi e sempre será celebrada.

Percebo que estou perdendo o foco do meu discurso! A razão para isto é que eu fico um tanto inibido quando me dou conta deste evento único que teve lugar na Igreja. É claro que posso dar abundantes razões sociológicas, políticas e históricas para este evento, o qual, em seus efeitos, só pode ser comparado, talvez, com os cem anos da controvérsia iconoclasta em Constantinopla, embora o iconoclasmo tenha afetado apenas uma pequena região dentro da vasta abrangência da Igreja Católica universal. Mas não acho nenhuma destas razões convincentes. Eu acredito na essência sobrenatural da Igreja: isto significa que não posso me satisfazer com quaisquer explicações naturais para os triunfos ou os desastres da Igreja. Consequentemente, eu me nego a adivinhar ou a supor as razões que moveram tantos reformadores de seu tempo a abandonarem o tesouro herdado da Igreja, seu próprio coração, e a elaborarem uma nova liturgia. Esta nova liturgia foi construída com elementos da antiga liturgia, mas, como o Papa Bento disse, ela tende a uma direção que em vários caminhos é oposta à antiga.

Já disse que esta reforma foi totalmente diferente de qualquer coisa na história da Igreja. Ela foi fundamentalmente nova e inovadora e constituiu uma profunda quebra com a tradição. Também houve algo especialmente infeliz sobre a reforma e que diz respeito não apenas à intenção dos reformadores, mas ao tempo em que ela foi introduzida, pois ela teve lugar no fatídico ano de 1968, um ano ao qual é preciso que os historiadores dêem mais atenção. Nós damos o nome de “anos do eixo” para os anos em que – sem nenhuma conexão intelectual ou política óbvia – ideias similares e movimentos religiosos florescem em todo o mundo. São, por exemplo, os anos quando Buda estava ensinando na Índia, Confúcio na China, Zoroastro na Pérsia, Jeremias em Israel e Pitágoras na Grécia. Foi como se todos estes eventos tivessem acontecido em volta de um eixo comum no mundo. E 1968 também foi como um ano do eixo. Viu-se, por todo o mundo, o estouro de uma revolta contra a tradição, a autoridade e os valores herdados. Na França, o último chefe de estado patriarcal do mundo ocidental, o General de Gaulle, foi derrubado do poder. Na América do Norte, surgiu um movimento juvenil aparentemente irresistível, tornando impossível que se continuasse a Guerra no Vietnã. Na Alemanha, o tradicional e muito eficiente sistema de universidades livres foi destruído como resultado de greves. Em Praga houve uma revolta contra a União Soviética, e a China viu a Revolução Cultural como sua grande devastação. Em 1967, o Novo Ordinário da Missa foi promulgado contra o desejo expresso de um sínodo de bispos convocado somente para considerar este assunto. Foi o primeiro Missal na história da Igreja a ser colocado nas escrivaninhas dos estudiosos e amplamente tirado de rascunhos. Agora, todavia, a reforma, que poderíamos bem chamar uma reinvenção, foi arrastada para dentro do tornado do Ano da Revolução: 1968. Num momento em que o Zeitgeist [o espírito dos tempos] estava completamente fora de controle, quando toda forma de obediência, autoridade, respeito e reverência estava sendo fundamentalmente rejeitada, esta medida radical estava para ser implementada em toda a Igreja universal, de Roma até a mais isolada comunidade clandestina na China. E devemos sempre recordar que esta medida era totalmente contrária ao espírito da Igreja. O resultado foi que em muitos lugares, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, mas também na América Latina, foi como se todas as barragens tivessem estourado. O que era intocável mostrou que poderia ser tocável. Isto significou que, doravante, jamais haveria algo intocável novamente. Daqui em diante tudo estaria disponível, à vontade, para cada geração. Tudo tornou-se, no princípio, disponível e passível. [Tudo agora valia]

A própria reforma do Papa Paulo [VI] teve consequências pesadas, mas a forma com que ela foi levada a cabo, particularmente na maioria das dioceses da Europa e dos Estados Unidos, é que lançou ao lixo tudo o que, no Rito Paulino, ainda tinha ligação com a tradição católica. Neste ano do eixo, 1968, reforma tornou-se revolução. Começou com a liturgia. E aqui podemos ver o papel central dela na Igreja: tudo o mais, a teologia, a pessoa do sacerdote, a constituição hierárquica da Igreja, as orações cotidianas dos fiéis, o edifício da cultura católica, as obras missionárias, e por fim até os artigos centrais da fé, estava intimamente ligado à Liturgia. Com a liturgia, ou todos ficam firmes ou todos caem. A liturgia não era uma forma historicamente condicionada que poderia ser substituída ou adaptada para todas as necessidades cotidianas, sem que sua substância sofresse algum prejuízo. Isto seria óbvio até para as pessoas que equivocadamente pensavam que o amor pela liturgia tradicional era um tipo de esteticismo religioso, moralmente duvidoso. Requisitos pastorais foram citados como os mais estranhos argumentos para a reforma. Um rito severamente simplificado, com orações em vernáculo que eram teologicamente gerais e não desafiadoras no tom, certamente ajudaria a manter as pessoas modernas dentro da Igreja. Até mesmo esta noção deveria ter feito as pessoas se questionarem; em terras de missão da Ásia, por exemplo, com sua civilização avançada, o povo foi acostumado a ritos extraordinariamente ricos em línguas sagradas difíceis por milênios. Recusar a tradição católica para eles seria equivalente a um ato de paternalismo colonialista. Em terras cristãs, contudo, as simplificações dos reformadores tiveram consequências devastadoras. Quando, apesar de muita resistência, a reforma foi posta em prática num último exercício de poder da parte das autoridades romanas centrais, os fiéis começaram a sair das igrejas. Como alguém ironicamente observou: "A reforma da Missa foi desejada para abrir as portas da Igreja para os de fora; o que aconteceu foi que os de dentro correram e fugiram!" O culto solene e hierático foi abolido, e a tentativa foi feita, por assim dizer, para se ir atrás dos fiéis por meio dos sacramentos. Mas eles rejeitaram a proposta. Em áreas inteiras da Europa toda a compreensão dos sacramentos sumiu. O desenvolvimento inteiro foi desconcertante: agora que toda palavra - declaradamente – poderia ser entendida, todo o evento eucarístico tornou-se de algum modo estranho ao povo. A grande obra da Igreja de tornar Deus presente não mais fazia sentido. Ao mesmo tempo, o conhecimento da fé católica se esvaiu. Hoje, na Europa, há muitos católicos que dificilmente sabem rezar o Pai nosso, muito menos o Credo. Muitos têm apenas a noção mais vaga acerca do ensinamento da Igreja.

Um dano terrível foi causado ao sacerdócio católico no alvorecer da reforma. No ocidente, desapareceu a antiga consciência de que, no altar, o sacerdote está agindo in persona Christi. O clero reformado [e remodelado] se redesenhou com linhas elegantemente democráticas. Ele não pode carregar a ideia de que o padre é homo excitatus a Deo (um homem suscitado por Deus do meio da multidão). Um padre moderno sente a distinção entre o laicato e o sacerdócio – uma distinção encontrada nos Atos dos Apóstolos – como um forte incômodo; ele não pode negar esta distinção, então ele tenta esquecê-la. Leigos invadem o santuário, mulheres agem como servas do altar (= coroinhas) (e assim obscurecem o fato de que atualmente os acólitos pertencem à menor categoria do clero). Na Europa, falando de modo geral, os padres abandonaram as vestes clericais. Eles já não querem ser reconhecíveis; eles consideram seu papel no meio da sociedade secularizada uma espécie de fonte de embaraços. Na Alemanha há um dito antigo: "O hábito não faz o monge". Está correto, mas o oposto é igualmente verdade, e temos que entender isto no nosso tempo: "É o hábito que faz o monge". Em outras palavras, é a harmonia entre a forma exterior e a atitude interior que faz o sacerdote católico. Ele deve cumprir sua função in persona Christi de um jeito corporal: deve ser visível e estar ao alcance de todos.

Liturgia, leitourgia no grego, significa "serviço público" ou "serviço em favor do povo". A Oração Litúrgica difere da oração individual. O indivíduo fala com Deus em qualquer língua que ele conhecer e com quaisquer palavras que ele puder, enquanto a Igreja reza em nome dos anjos, dos santos, das almas do purgatório e de todos os vivos na terra. Esta oração de todos e por todos deve ser modelada com uma forma que está aberta ao exame de todos. A Igreja ocidental preocupou-se com a possibilidade de haver um fosso crescente entre uma sociedade consumista, libertária e sem religião e o mundo da fé; nesse sentido tentou suprimir tudo que era específico a ela mesma e que pudesse ofender [ser uma pedra de tropeço] na esfera secular. Ela tentou amparar os princípios do mundo moderno. Resultou que, como alguém disse: “batizaram-se ideias que não tinham se convertido”. Quarenta anos se foram deste jeito e a Igreja ocidental perdeu mais e mais clareza de perfil, tentando mais e mais adaptar-se favoravelmente às ideias de uma sociedade sem religião. Há algo de misterioso e mágico nestes números. O povo de Israel passou 40 anos errante no deserto. A ocupação Comunista na Alemanha Oriental com o seu regime de fantoche também durou 40 anos. 40 anos foram gastos "reformando" a Igreja e quando se completaram estes 40 anos, o fruto tinha amadurecido. Ele estourou e espalhou seu conteúdo de mal cheiro por toda parte. Estou falando aqui dos escândalos de imoralidade que abalaram muitas províncias do ocidente da Igreja. Obviamente, podemos dizer que no presente ambiente, que é hostil à Igreja, os escândalos foram maliciosamente exagerados, distorcidos e generalizados. Mas o que os escândalos revelam acima de tudo é uma Igreja que está muda e desamparada, tendo se secularizado. Tendo cortejado o público descaradamente, já não pode comunicar seu próprio ser; não pode mais comunicar sua realidade central. Quarenta anos de aggiornamento, quarenta anos de popularização e secularização do sacramento do altar, produziram uma catástrofe das mais altas proporções. Não se trata de um exagero. E assim como as pessoas que, desde o início, assistiram o experimento da secularização, com ansiedade e apreensão, não estão agora dizendo presunçosamente “eu não disse?”, não há satisfação alguma em estar no lado correto quando todos temos diante de si este terrível colapso e o esquecimento [banimento da sociedade] da moral da Igreja. Nós percebemos que gerações têm estado abandonadas e perdidas, e que sua reconstrução seria infinitamente dura e laboriosa. Tomar-se-á muito tempo para repor o sangue que jorrou por conta da hemorragia da Igreja ocidental.

Houve antes um tempo, na história da Igreja, em que a fé começou a mudar de habitat. Ela deixou áreas em que já existia e logrou novos territórios em outros lugares. Poucos cristãos vivem hoje nas terras natais das origens da cristandade: Palestina, Egito, Ásia Menor particularmente – lugares onde a jovem Igreja floresceu e em que ocorreu o primeiro importante Concílio. Por que com a Europa cristã seria diferente? O cristianismo viajou por todo o mundo a partir de sua base na Europa. Na Ásia pode ainda ser uma minoria, mas trata-se de uma minoria espiritual e intelectualmente forte, resoluta e pronta para o sacrifício. É uma minoria considerada com respeito pela maioria.

Para mim fica claro que a destruição da tradição católica causou menos danos em regiões que não tinham ligações com o espírito de 1968. Embora estas reformas tenham sido nitidamente contrárias à tradição da Igreja, era possível, obviamente, implementá-las num espírito de devoção e com um coração modelado por esta tradição. Ademais, muitas das mais ofensivas infrações cometidas contra a lei da tradição católica de modo algum estavam enraizadas na reforma do Papa Paulo. Elas cresceram da desobediência que proliferou em toda parte no Ocidente como resultado do colapso estrutural durante o pontificado deste pobre Papa. Uma vez que Paulo VI começou a perceber a extensão da destruição, ele observou com grande emoção que "a fumaça de Satanás entrou na Igreja". O Missal de Paulo VI, por exemplo, não ordenou que se virassem os altares – um dos mais graves atos contra a tradição da oração no mundo inteiro. Papa Paulo não necessariamente quis pôr fim à tradição do sacerdote, junto com os fiéis, ficar voltado para o Cristo Crucificado, o Cristo que deve vir do Oriente; nem quis suprimir a tradição conforme à qual o sacerdote dirige suas orações, junto com a assembleia, a Cristo, presente sobre o altar na forma dos dons transubstanciados. Esta inversão da orientação da oração fez mais dano na Europa e nos Estados Unidos do que todos os teólogos relativizadores, desmitificadores e humanizadores. De imediato, pareceu ao simples crente que as orações não eram mais dirigidas a Deus, mas à assembleia. Agora, o propósito da oração era deixar a assembleia de bom humor, em bom estado de espírito a fim de que pudesse celebrar a si mesma como "Povo de Deus". Coisa parecida aconteceu quando a Sagrada Comunhão foi dada na mão, em vez de na língua, como antigamente. Esta mudança também não foi prevista pelo Missal de Paulo VI: ela foi forçada por alguns bispos alemães.

Antes das mudanças, toda uma coroa de gestos reverentes tinha se acumulado em torno do sacramento do altar, e estes gestos davam um sermão eloquente, recordando constantemente o sacerdote e o povo da misteriosa presença do Senhor no Pão e no Vinho consagrados. Podemos ter certeza disto: nenhuma doutrinação teológica da parte dos chamados teólogos “iluminados” fez tão mal à crença dos católicos ocidentais quanto a comunhão na mão. Isto imediatamente aboliu todos os antigos cuidados quanto às partículas da Hóstia. É impossível, então, receber a comunhão na mão de modo reverente? Claro que é possível. Mas uma vez que a etiqueta da reverência existe e tem tido seu benefício, sua elevada influência sobre a consciência do fiel, é lógico que a retirada da etiqueta deu um claro sinal (e de modo algum apenas para os simples crentes). Que sinal foi esse? Que o grau de reverência de antes não era requerido. Isto por sua vez, logicamente, produziu a convicção — uma convicção que não se fez explícita inicialmente — de que ali não havia nada presente a que se devesse respeito.

Como eu disse, estas coisas foram o resultado da funesta combinação da reforma litúrgica com o Zeitgeist político do Ocidente. Absurdamente, este "espírito dos tempos" pediu a democratização do culto católico, como se a Igreja fosse uma organização política como um estado ou um partido político. Na Ásia, pelo contrário, o crescimento da Igreja, seu poder carismático e cheio do Espírito parece não ter sido minado pela reforma; todo católico deve ser grato de todo o coração por isto. Onde o fogo queima, este pode ser dado aos outros. Não seria a primeira vez na história da Igreja em que territórios de missão retransmitiriam a fé para terras originalmente cristãs que a perderam. Depois da queda do Império Romano, a França foi recristianizada pelos monges irlandeses, que por sua vez devem sua cristandade aos missionários egípcios. Desta forma a lei da mutualidade foi cumprida, pelos irmãos que se revigoraram na fé. Mas também devemos lembrar do verso do poeta John Donne "nenhum homem é uma ilha" – neste sentido: na Igreja universal não há “ilhas de bem-aventurados” e nem lugares que são poupados das venturas e desventuras do corpo mais amplo por longo prazo. A crise no corpo mais amplo da Igreja alcançará todas as partes um dia; devemos estar preparados e equipados para isto. Tais regiões que nunca produziram os sintomas da queda e da debilidade devem perguntar as causas de tal decadência e o que pode ser feito para evitá-las. O ataque à herança litúrgica pela reforma da Missa continua sendo um problema, no sentido estritamente filosófico do termo, porque criou uma situação que não tinha solução óbvia. O povo diz "problemas não têm solução, só uma história". E esta história do problema da reforma litúrgica apenas começou. Mesmo antes de sua eleição, nosso Santo Padre, o Papa Bento XVI, foi um dos bem poucos bispos que sabiam que a ruptura radical com a tradição representava um grande perigo para a Igreja. Agora, em seu famoso Motu proprio, ele afirmou que o Rito Tradicional da Igreja nunca foi proibido porque, por sua própria natureza, não o poderia ser. O Papa não é o mestre da liturgia, mas seu protetor. A Igreja nunca abandona seus ritos herdados, os quais considera uma herança espiritual. Pelo contrário, ela exorta os fiéis a estudá-los e a descobrir, aqui e agora, os seus tesouros ocultos.

O Papa não teve nenhuma intenção de ignorar o passado – o que seria inútil em todo caso – e nem fingiu que os últimos quarenta anos não aconteceram. Ele tomou uma decisão que era almejada, sobretudo, para reconciliar o partido da reforma com os defensores da tradição católica. Segundo o estabelecido pelo papa, há agora um único Rito Romano em duas formas, a "ordinária" e a "extraordinária". As duas formas estão lado a lado numa relação de igualdade. Qualquer uma destas formas pode ser celebrada por qualquer sacerdote sem nenhuma permissão episcopal. Elas se referem entre si de tal modo que o celebrante da forma nova (a ordinária) deve aprender da forma tradicional (a extraordinária) como a tradição da Igreja entende a Santa Missa. O papa exortou a Igreja a reexaminar os antigos livros dos ritos e a aprender, dos padres e santos dos séculos passados, como realizar a solene obra de fazer Deus presente. Todos somos chamados, então, a dar graças pelo resgate do Missal tradicional, que estava quase perdido, e a abri-lo – talvez mesmo “ao cair da tarde” (cf. Mt 20,1-16) – e ler como a Igreja, e todo os povos fieis a quem devemos a nossa fé, costumavam rezar. Talvez também nós possamos tentar rezar como eles rezaram. Não deveríamos esquecer que este foi o Missal dos papas romanos; ele foi prescrito para toda a Igreja no Concílio de Trento. Por quê? Porque, com absoluta certeza, não continha erro algum, nem a mínima possibilidade de equívoco. Na grande crise da Reforma ele foi considerado uma espécie de Arca de Noé espiritual para a Igreja, salvando-a do dilúvio da apostasia universal.

Descubramos, pois, o Salmo Iudica (Sl 42), com que a Missa tradicional inicia aos pés do altar, preparação ímpar para o rito. Somos convocados a deixar para trás nossas preocupações individuais, cotidianas, para nos voltarmos deste mísero mundo e expulsarmos nossas ansiedades, nossos cuidados e nossas dúvidas profundas. Estamos prestes a subir ao santuário do Senhor, sobre o monte do seu templo. Este Salmo nos convida para a Missa como para uma peregrinação, na qual deixamos para trás tudo o que se torna obstáculo à nossa oração. Em seguida, o sacerdote faz sua confissão dos pecados e a assembleia ouve-o em silêncio antes de rezar para que os pecados dele sejam perdoados. Então a assembleia faz sua própria confissão dos pecados para o sacerdote. De fato, a confissão dos pecados só faz sentido nesta forma dialogada, porque uma confissão precisa de alguém que, enquanto escuta, não esteja falando ao mesmo tempo. Descubramos o grande Credo de Constantinopla, que foi formulado para esclarecer o de Nicéia e repelir os erros do Arianismo. Bem como a Igreja, quando foi ameaçada pelo Arianismo, precisamos novamente da profissão de fé que diz que Jesus é "Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro". Na Alemanha, pelo menos, este Credo desapareceu quase por complete do culto, bem como a genuflexão ao artigo central de nossa fé: "et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria virgine et homo factus est". Com espanto e admiração leiamos as Orações, especialmente as dos Domingos depois de Pentecostes, muitas das quais foram compostas pelo próprio São Jerônimo. São obras-primas de retórica [oratória], formulando verdades teológicas que nutrem a meditação mesmo fora da Missa, e dando voz, de modo singular, ao relacionamento cristão entre Deus e o homem. Uma das maiores percas na reforma da Missa é a perca das orações do Ofertório, durante as quais as oferendas veladas são trazidas para o altar e o sagrado evento da morte sacrifical do Senhor tem seu início. Estas orações vieram de tempos antigos; elas falam, pela primeira vez na história humana, da dignidade do homem, uma dignidade dada por Deus a estas suas criaturas desde as origens, dignidade esta que foi maravilhosamente renovada pela morte sacrifical de Jesus. A Epiclese também é da maior importância: nela o Espírito Santo é invocado sobre os dons. A Igreja Oriental considera esta oração como tendo um efeito especial no ato de transformar os dons; mas a Igreja Ocidental, também, sabe que é o Espírito Santo que trará o milagre da transubstanciação. Então vem o Cânon Romano, que ainda está contido no novo missal, embora só seja rezado em poucos lugares hoje em dia. O Cânon Romano, listando todos os santos da cidade de Roma, une todos os oferecimentos da Missa com Roma, com o Papa e, portanto, com a Igreja universal. Desta forma, aqueles que têm a Missa em comum, vêm de sua terra natal e tornam-se cidadãos de Roma, membros da Igreja que abraça o mundo inteiro. Numa oração muito significante o Cânon Romano une o presente sacrifício do altar aos sacrifícios de todos os homens, em todos os tempos: ao sacrifício de Abel (representando a revelação em sua primeira forma), ao sacrifício do Rei Melquisedec (que não era judeu e, assim, representa os sacrifícios dos povos não-judeus) e ao sacrifício de Abraão, o qual – de forma terrivelmente clara - antecipa o sacrifício da Cruz, este drama que acontece entre o Pai e o Filho.

Só posso dar uma indicação muito superficial da riqueza de formas a ser encontrada na linguagem ritual que passou por milhares de anos de refinamento. O antigo Missal está cheio de referências e alusões, das quais apenas depois de décadas de uso se compreendeu bem o significado. A meta dele é mudar a vida dos fiéis. E isto requer uma meditação a longo prazo. Não se trata de um instrumento para imediata propaganda; seria mais algo a que se deve dar tempo para penetrar a alma. E o que dizer da linguagem do Missal? Os fiéis de língua inglesa, pelo menos, logo estarão possibilitados a usar traduções corretas que substituirão as simplificações e falsificações tão danosas que se encontram atualmente [nt: a tradução mais fiel do Missal em inglês saiu há alguns meses e deve entrar em vigor no dia 27/11/11]. Outras nações, onde a arrogância modernista está mais estabelecida, ainda terão que esperar muito por isto. É, por isto, da maior importância para os sacerdotes, bem como para os fiéis, conhecer a língua-mãe da Igreja, na qual os ensinamentos da Igreja se preservaram de um modo claro e conciso. Uma língua sagrada possui a vantagem de não ser a língua de nenhuma nação particular. Adentramos esta língua como que entrando num edifício sagrado; ela respira uma oração que é mais poderosa que a oração individual. Ela reza uma oração que é pré-existente, que é anterior a nós; temos apenas que nos associarmos a ela, unirmo-nos a ela. A Igreja a que pertencemos está acima do tempo e dos povos; e ela está presente nesta língua sagrada. Pode ser que a crise presente esteja nos presenteando com uma oportunidade: não deveríamos nos permitir afogarmo-nos numa rotina piedosa, mas devemos redescobrir a forma visível da Igreja, aprender a amá-la e a defendê-la como um precioso tesouro que pensávamos ter se perdido: para nossa grande surpresa e alegria, encontramo-lo novamente e percebemos, talvez pela primeira vez, que nada o pode substituir.


Fonte:Archdiocese of Colombo
Tradução: Luís Augusto - membro da ARS